cresce correndo o espaço
de dentro de casa, procura-se
casa em toda parte
a literatura, meu caro,
ha-de deixar-te louco!
lisboa ja foi
e o que restou
de lisboa
foi um pedaço de casa
uma migalha de sonho
perdida em paralelepipedos
o rosto surrealista
me sorrindo e pede
"deixa-te ser, deixa
um pouco de apreço
trazer-te de volta ao
espaço, esta infâmia
que é estar em toda parte"
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010
a ler sem dar assim tanta importância.
"luz vermelha na sala nao é boa coisa", falou a voz outra, aquela voz do outro lado. eu quis argumentar, quis dizer que precisava escrever, que os meus dias têm tido e sido essa luz vermelha que coisa boa nao é. e eu mesma escolhi a luz vermelha pra essa sala. escolhi porque nao imaginei que fosse sentir o vazio imenso e inevitavel de quem escolhe coisas. escolhi porque nao sabia que doeria assim, nao sabia que a luz vermelha da sala se tornaria os passos pra além da janela da sala, pra muito além da janela da sala, o sinal vermelho, a noite nessa cidade de tantas luzes, por que é a luz vermelha que insiste em se destacar? os farois dos carros, os olhos cheios de raiva dentro do metrô, porque ja é tarde, porque ainda estou voltando pra casa, por que eu ja nao estou em casa?, o que diabos eu estou fazendo aqui?. tenho vontade de ser lirica e de mandar pra puta que pariu o receio de descobrir que o lirismo na verdade tem uma medida estranha, que eu nao consigo alcançar. de nada adiantou a literatura, de nada adiantaram tantos anos de literatura, agora fica o duplo silêncio, eu ja devo ter dito demais, tao além da conta que cada palavra me faz refletir imenso, por que os brasileiros nao falam assim também?, pensar nas tantas inferências, pensar que pensar que as inferências sao tao inalcançaveis quanto o pretendido lirismo, imaginar se ainda vale a pena continuar a escrever sob a luz vermelha da sala, vermelha como o sofa, como a dor breve e eficaz que faz as putas chorarem sob uma luz igualmente vermelha nos lugares invisiveis da cidade. essa luz nao me deixa terminar.
sob a luz vermelha, eu tive delirios de escrita. e eu nao consegui muito além de meros desabafos. vazios. mas boa puta nao chora. e eu continuei aqui.
sob a luz vermelha, eu tive delirios de escrita. e eu nao consegui muito além de meros desabafos. vazios. mas boa puta nao chora. e eu continuei aqui.
terça-feira, 21 de abril de 2009
de volta. e sem respirar.
sempre que tinha de falar amor, eu falava chorado, eu falava crescendo, mas sem direção, eu falava sentado, imune a qualquer censura, eu olhava adiante, eu sabia que sim, eu cantava de medo, eu acendia a luz, eu esperava passar, eu murrava o chão, meus pés são como facas, eu levantava e corria, eu sabia que sim, eu pensava que a musica era então natural, preparar cha sem leite, como que pra desafiar os costumes, gritar a toda gente, sair de casa e sorrir, sempre que eu tinha de falar de amor, era assim que acontecia, quatro paginas para terminar um livro, a graça e a solidão, eu finalmente estou sozinho, como se fossem so vidas, so vidas e mais as vidas do outro, porque é assim quando se tem de falar de amor, tem o outro, tem o outro até insuportavelmente, e eu não sei dos outros, mas ha aqui os olhos, um par deles, aqueles olhos aos quais obedeço, quando crescem ou quando fecham para dormir, sem verbos reflexivos, dessa vez sem gritos, que o amor é surdo, que o amor é burro, que o amor é doce insulto.
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
com o tempo, a franqueza.
o que eu esperava que fosse acontecer? agora você está aí, o chão é tão escorregadio na rua, a rua é tão cheia de gente... não era bem isso que você queria? andar pelas ruas aqui tem algo de estranho, de mais estrangeiro que em qualquer outro lugar. antigamente, você andava pelas ruas e não conhecia as pessoas, mas tudo era confortavelmente familiar... você não se importava tanto assim com tantas coisas. ou se importava com outras bem diferentes. tanto faz, mas a questão é que, de qualquer forma, era bem isso que você queria.
"e quem é você pra dizer?", mas você diz. o que existe em você de terrivelmente humano é pensar que você tem o direito de dizer alguma coisa. e você diz e pensa que tem a voz de todos nós, que tem a excepcional propriedade de ter uma só voz. é terrível, você tem plena consciência - também essa tão humana! - de pensar que tem alguma idéia da própria megalomania. e você se sente ora mal, ora muito mal, ora indiferente, ora bastante inteligente, porque às vezes você se convence de que sabe mesmo, de que a sua voz é de fato representativa de algo. mas não, não desista de pensar. daí vem alguma da sua graça. daí vêm os momentos em que você se crê útil e eu também não gostaria de te deixar insatisfeito consigo mesmo mais uma vez. eu sei que você se crê inútil boa parte do tempo e que essa é das suas maiores preocupações, uma das maiores críticas que tem em relação a si mesmo.
mas era isso que você queria e o que eu esperava que fosse acontecer. você sempre foi assim e não teria como ser diferente agora; mais, não teria como não ser exatamente como eu esperava que fosse acontecer: a sua sede por situações perfeitas, ou melhor, por circunstâncias perfeitas, essas que te movem, essas que te fazem não ser útil, mas se crer útil, são justamente as suas maiores inimigas. e é ai que você se dá conta. é terrível, eu sei. você também sabia. você sabia bem, mas é isso de que, pelo menos você pode se orgulhar... você não se importou, mais uma vez, com toda a dificuldade que isso traria, com como isso tudo desafiaria a sua natureza de pretender que circunstâncias podem ser perfeitas. você tem essa ingenuidade particularmente infantil de acreditar que os inimigos podem se tornar amigos. ou que você pode domar os seus próprios inimigos, eu não preciso explicar, porque você sabe bem.
não se lamente, você também aprendeu e procura a todo custa acreditar que a vida tem um ritmo que ninguém consegue realmente entender - aí você diz por todo mundo, é a sua voz se tornando única mais uma vez, com a força de todas as gerações, culturas, tempos e línguas - e que esse ritmo é ao menos bastante bonito, apesar de criar tanto sofrimento, tanta preocupação e que , de alguma forma, não me pergunte qual, você vai se tornar uma pessoa boa, uma pessoa que vale mesmo a pena, que faz o que deve, que vai vencer na vida, que vai, no fim das contas, ter algum orgulho de si mesma.
"e quem é você pra dizer?", mas você diz. o que existe em você de terrivelmente humano é pensar que você tem o direito de dizer alguma coisa. e você diz e pensa que tem a voz de todos nós, que tem a excepcional propriedade de ter uma só voz. é terrível, você tem plena consciência - também essa tão humana! - de pensar que tem alguma idéia da própria megalomania. e você se sente ora mal, ora muito mal, ora indiferente, ora bastante inteligente, porque às vezes você se convence de que sabe mesmo, de que a sua voz é de fato representativa de algo. mas não, não desista de pensar. daí vem alguma da sua graça. daí vêm os momentos em que você se crê útil e eu também não gostaria de te deixar insatisfeito consigo mesmo mais uma vez. eu sei que você se crê inútil boa parte do tempo e que essa é das suas maiores preocupações, uma das maiores críticas que tem em relação a si mesmo.
mas era isso que você queria e o que eu esperava que fosse acontecer. você sempre foi assim e não teria como ser diferente agora; mais, não teria como não ser exatamente como eu esperava que fosse acontecer: a sua sede por situações perfeitas, ou melhor, por circunstâncias perfeitas, essas que te movem, essas que te fazem não ser útil, mas se crer útil, são justamente as suas maiores inimigas. e é ai que você se dá conta. é terrível, eu sei. você também sabia. você sabia bem, mas é isso de que, pelo menos você pode se orgulhar... você não se importou, mais uma vez, com toda a dificuldade que isso traria, com como isso tudo desafiaria a sua natureza de pretender que circunstâncias podem ser perfeitas. você tem essa ingenuidade particularmente infantil de acreditar que os inimigos podem se tornar amigos. ou que você pode domar os seus próprios inimigos, eu não preciso explicar, porque você sabe bem.
não se lamente, você também aprendeu e procura a todo custa acreditar que a vida tem um ritmo que ninguém consegue realmente entender - aí você diz por todo mundo, é a sua voz se tornando única mais uma vez, com a força de todas as gerações, culturas, tempos e línguas - e que esse ritmo é ao menos bastante bonito, apesar de criar tanto sofrimento, tanta preocupação e que , de alguma forma, não me pergunte qual, você vai se tornar uma pessoa boa, uma pessoa que vale mesmo a pena, que faz o que deve, que vai vencer na vida, que vai, no fim das contas, ter algum orgulho de si mesma.
sexta-feira, 12 de dezembro de 2008
tentativas.
tentaram entrar
por um buraco sem nome
como as ruas ao lado
todas sem nome
todos os receios
sem saber quais sao
e era justamente isso
ficaram presos no meio
do buraco
sem sabor sem criacao
sem virgulas
que a vida nao respira
a vida esta ofegante
sem espaco sem onde.
por um buraco sem nome
como as ruas ao lado
todas sem nome
todos os receios
sem saber quais sao
e era justamente isso
ficaram presos no meio
do buraco
sem sabor sem criacao
sem virgulas
que a vida nao respira
a vida esta ofegante
sem espaco sem onde.
quinta-feira, 20 de novembro de 2008
forme française, forme étrangère.
não é o momento de ver a bandeira da frança pela janela da sala de aula. a bandeira da frança no jardim choroso de chuva, de dia entre sete e treze graus, doi quase tanto quanto esta vida que ja não é mais na minha lingua.
e eu penso em todos eles à medida em que escrevo. e eu entendo cada vez menos à medida em que penso em todos eles.
a respeito de reconhecer egoismos, vejo aqui uma enorme, imensuravel pretensão. não ha importância. mais vale reconhecer as tristezas de cada um. e, assim, a condolência. nada mais belo que a condolência. aqui, eu reconheço o inegoismo. et on s'en fiche.
o amor não pode ser algo que mude de acordo com o ambiente. pode mudar com o tempo, que é assustador, cette lucidité violente. o amor, que é a lucidez calma, bendita, mesmo sagrada, não escapa da lucidez do tempo. eu me pergunto o que é mais forte. eu não ouso entender, embora me pergunte qual dos dois é mais forte.
a literatura serve para entender qualquer coisa a respeito do que nos recusamos a entender. e é ai que eu tenho as lembranças mais puras do amor. o aprendizado do amor desde criança, quando eu ouvia que a gente deve fazer o bem a outrem. que a gente deve oferecer a outra face. sobre as historias de sacrificio. sobre a pratica do inegoismo (cette lucidité de l'absurde).
ainda esta tarde, a tristeza era muita e houve uma catastrofe silenciosa. a absoluta falta de solução para a noite ja nascendo no meu peito. e eu pensei em todos eles. não vi aqui amor ou tempo. vazio. como pode uma tarde ser vazia assim?
não existe agua magica que va me transformar em macunaima. eu vou mudar, eu sei que vou mudar, mas não existe magica. o que existe é essa tarde fria, essa tarde que ja acabou e não me fez pensar em amor, embora um amor profundo me venha quando penso nessa tarde.
essas aulas são o amor solitario. os grandes falam, não de amor, mas tão plenos de amor na boca, é so por isso que se fala em literatura, essa tremenda falta de ousadia que é a literatura. et le drapeau du pays ne bouge plus.
e eu penso em todos eles à medida em que escrevo. e eu entendo cada vez menos à medida em que penso em todos eles.
a respeito de reconhecer egoismos, vejo aqui uma enorme, imensuravel pretensão. não ha importância. mais vale reconhecer as tristezas de cada um. e, assim, a condolência. nada mais belo que a condolência. aqui, eu reconheço o inegoismo. et on s'en fiche.
o amor não pode ser algo que mude de acordo com o ambiente. pode mudar com o tempo, que é assustador, cette lucidité violente. o amor, que é a lucidez calma, bendita, mesmo sagrada, não escapa da lucidez do tempo. eu me pergunto o que é mais forte. eu não ouso entender, embora me pergunte qual dos dois é mais forte.
a literatura serve para entender qualquer coisa a respeito do que nos recusamos a entender. e é ai que eu tenho as lembranças mais puras do amor. o aprendizado do amor desde criança, quando eu ouvia que a gente deve fazer o bem a outrem. que a gente deve oferecer a outra face. sobre as historias de sacrificio. sobre a pratica do inegoismo (cette lucidité de l'absurde).
ainda esta tarde, a tristeza era muita e houve uma catastrofe silenciosa. a absoluta falta de solução para a noite ja nascendo no meu peito. e eu pensei em todos eles. não vi aqui amor ou tempo. vazio. como pode uma tarde ser vazia assim?
não existe agua magica que va me transformar em macunaima. eu vou mudar, eu sei que vou mudar, mas não existe magica. o que existe é essa tarde fria, essa tarde que ja acabou e não me fez pensar em amor, embora um amor profundo me venha quando penso nessa tarde.
essas aulas são o amor solitario. os grandes falam, não de amor, mas tão plenos de amor na boca, é so por isso que se fala em literatura, essa tremenda falta de ousadia que é a literatura. et le drapeau du pays ne bouge plus.
domingo, 9 de novembro de 2008
repeticoes.
as gentes perguntam rigorosamente as mesmas coisas. ha, sem duvida, uma enorme gentileza nisso tudo. talvez uma certa preocupacao. a verdade eh que ninguem entende nada. nada.
e nada eh o que tambem posso fazer a respeito.
por muitas vezes, a vontade eh de nada dizer. de parecer idiota. nao ter qualquer opiniao. todo domingo eh ruim, todo domingo eh ruim em qualquer canto do mundo. pensamentos praticos. procurar emprego. comprar papel higienico. pagar o proximo aluguel. comprar moveis. os pratos, bem, ha dois pratos. so dois pratos, e por caridade.
talvez haja nada demais em se ter dois pratos, so dois pratos, e por caridade. mas eh que eh engracado: talvez poucas pessoas passem por isso, talvez muitas, mas eh que eu nunca cri que fosse ter uma situacao assim. e mais: nunca imaginei que um domingo e ter dois pratos por caridade fossem me deixar com esse gosto esquisito na boca. com essa vontade de escrever qualquer coisa, sem saber bem o que. nunca achei que, num domingo, os beatles fossem simplesmente me irritar.
e as pessoas continuam com as mesmas perguntas. e eu me pergunto se um dia serei desassociada da minha nacionalidade.
procurar emprego. comprar papel higienico. nao pode ser tao doloroso assim. ouvir astor piazzolla. nada melhora. a casa continua escura. e a noite avanca, sem que eu possa entender muita coisa.
eh um desespero. mesmo que eu estivesse la... todo domingo eh ruim.
e nada eh o que tambem posso fazer a respeito.
por muitas vezes, a vontade eh de nada dizer. de parecer idiota. nao ter qualquer opiniao. todo domingo eh ruim, todo domingo eh ruim em qualquer canto do mundo. pensamentos praticos. procurar emprego. comprar papel higienico. pagar o proximo aluguel. comprar moveis. os pratos, bem, ha dois pratos. so dois pratos, e por caridade.
talvez haja nada demais em se ter dois pratos, so dois pratos, e por caridade. mas eh que eh engracado: talvez poucas pessoas passem por isso, talvez muitas, mas eh que eu nunca cri que fosse ter uma situacao assim. e mais: nunca imaginei que um domingo e ter dois pratos por caridade fossem me deixar com esse gosto esquisito na boca. com essa vontade de escrever qualquer coisa, sem saber bem o que. nunca achei que, num domingo, os beatles fossem simplesmente me irritar.
e as pessoas continuam com as mesmas perguntas. e eu me pergunto se um dia serei desassociada da minha nacionalidade.
procurar emprego. comprar papel higienico. nao pode ser tao doloroso assim. ouvir astor piazzolla. nada melhora. a casa continua escura. e a noite avanca, sem que eu possa entender muita coisa.
eh um desespero. mesmo que eu estivesse la... todo domingo eh ruim.
Assinar:
Postagens (Atom)