Terça-feira, 21 de Abril de 2009

de volta. e sem respirar.

sempre que tinha de falar amor, eu falava chorado, eu falava crescendo, mas sem direção, eu falava sentado, imune a qualquer censura, eu olhava adiante, eu sabia que sim, eu cantava de medo, eu acendia a luz, eu esperava passar, eu murrava o chão, meus pés são como facas, eu levantava e corria, eu sabia que sim, eu pensava que a musica era então natural, preparar cha sem leite, como que pra desafiar os costumes, gritar a toda gente, sair de casa e sorrir, sempre que eu tinha de falar de amor, era assim que acontecia, quatro paginas para terminar um livro, a graça e a solidão, eu finalmente estou sozinho, como se fossem so vidas, so vidas e mais as vidas do outro, porque é assim quando se tem de falar de amor, tem o outro, tem o outro até insuportavelmente, e eu não sei dos outros, mas ha aqui os olhos, um par deles, aqueles olhos aos quais obedeço, quando crescem ou quando fecham para dormir, sem verbos reflexivos, dessa vez sem gritos, que o amor é surdo, que o amor é burro, que o amor é doce insulto.

Quinta-feira, 5 de Fevereiro de 2009

com o tempo, a franqueza.

o que eu esperava que fosse acontecer? agora você está aí, o chão é tão escorregadio na rua, a rua é tão cheia de gente... não era bem isso que você queria? andar pelas ruas aqui tem algo de estranho, de mais estrangeiro que em qualquer outro lugar. antigamente, você andava pelas ruas e não conhecia as pessoas, mas tudo era confortavelmente familiar... você não se importava tanto assim com tantas coisas. ou se importava com outras bem diferentes. tanto faz, mas a questão é que, de qualquer forma, era bem isso que você queria.

"e quem é você pra dizer?", mas você diz. o que existe em você de terrivelmente humano é pensar que você tem o direito de dizer alguma coisa. e você diz e pensa que tem a voz de todos nós, que tem a excepcional propriedade de ter uma só voz. é terrível, você tem plena consciência - também essa tão humana! - de pensar que tem alguma idéia da própria megalomania. e você se sente ora mal, ora muito mal, ora indiferente, ora bastante inteligente, porque às vezes você se convence de que sabe mesmo, de que a sua voz é de fato representativa de algo. mas não, não desista de pensar. daí vem alguma da sua graça. daí vêm os momentos em que você se crê útil e eu também não gostaria de te deixar insatisfeito consigo mesmo mais uma vez. eu sei que você se crê inútil boa parte do tempo e que essa é das suas maiores preocupações, uma das maiores críticas que tem em relação a si mesmo.

mas era isso que você queria e o que eu esperava que fosse acontecer. você sempre foi assim e não teria como ser diferente agora; mais, não teria como não ser exatamente como eu esperava que fosse acontecer: a sua sede por situações perfeitas, ou melhor, por circunstâncias perfeitas, essas que te movem, essas que te fazem não ser útil, mas se crer útil, são justamente as suas maiores inimigas. e é ai que você se dá conta. é terrível, eu sei. você também sabia. você sabia bem, mas é isso de que, pelo menos você pode se orgulhar... você não se importou, mais uma vez, com toda a dificuldade que isso traria, com como isso tudo desafiaria a sua natureza de pretender que circunstâncias podem ser perfeitas. você tem essa ingenuidade particularmente infantil de acreditar que os inimigos podem se tornar amigos. ou que você pode domar os seus próprios inimigos, eu não preciso explicar, porque você sabe bem.

não se lamente, você também aprendeu e procura a todo custa acreditar que a vida tem um ritmo que ninguém consegue realmente entender - aí você diz por todo mundo, é a sua voz se tornando única mais uma vez, com a força de todas as gerações, culturas, tempos e línguas - e que esse ritmo é ao menos bastante bonito, apesar de criar tanto sofrimento, tanta preocupação e que , de alguma forma, não me pergunte qual, você vai se tornar uma pessoa boa, uma pessoa que vale mesmo a pena, que faz o que deve, que vai vencer na vida, que vai, no fim das contas, ter algum orgulho de si mesma.

Sexta-feira, 12 de Dezembro de 2008

tentativas.

tentaram entrar
por um buraco sem nome
como as ruas ao lado
todas sem nome
todos os receios
sem saber quais sao

e era justamente isso
ficaram presos no meio
do buraco
sem sabor sem criacao

sem virgulas
que a vida nao respira
a vida esta ofegante
sem espaco sem onde.

Quinta-feira, 20 de Novembro de 2008

forme française, forme étrangère.

não é o momento de ver a bandeira da frança pela janela da sala de aula. a bandeira da frança no jardim choroso de chuva, de dia entre sete e treze graus, doi quase tanto quanto esta vida que ja não é mais na minha lingua.
e eu penso em todos eles à medida em que escrevo. e eu entendo cada vez menos à medida em que penso em todos eles.
a respeito de reconhecer egoismos, vejo aqui uma enorme, imensuravel pretensão. não ha importância. mais vale reconhecer as tristezas de cada um. e, assim, a condolência. nada mais belo que a condolência. aqui, eu reconheço o inegoismo. et on s'en fiche.
o amor não pode ser algo que mude de acordo com o ambiente. pode mudar com o tempo, que é assustador, cette lucidité violente. o amor, que é a lucidez calma, bendita, mesmo sagrada, não escapa da lucidez do tempo. eu me pergunto o que é mais forte. eu não ouso entender, embora me pergunte qual dos dois é mais forte.
a literatura serve para entender qualquer coisa a respeito do que nos recusamos a entender. e é ai que eu tenho as lembranças mais puras do amor. o aprendizado do amor desde criança, quando eu ouvia que a gente deve fazer o bem a outrem. que a gente deve oferecer a outra face. sobre as historias de sacrificio. sobre a pratica do inegoismo (cette lucidité de l'absurde).
ainda esta tarde, a tristeza era muita e houve uma catastrofe silenciosa. a absoluta falta de solução para a noite ja nascendo no meu peito. e eu pensei em todos eles. não vi aqui amor ou tempo. vazio. como pode uma tarde ser vazia assim?
não existe agua magica que va me transformar em macunaima. eu vou mudar, eu sei que vou mudar, mas não existe magica. o que existe é essa tarde fria, essa tarde que ja acabou e não me fez pensar em amor, embora um amor profundo me venha quando penso nessa tarde.
essas aulas são o amor solitario. os grandes falam, não de amor, mas tão plenos de amor na boca, é so por isso que se fala em literatura, essa tremenda falta de ousadia que é a literatura. et le drapeau du pays ne bouge plus.

Domingo, 9 de Novembro de 2008

repeticoes.

as gentes perguntam rigorosamente as mesmas coisas. ha, sem duvida, uma enorme gentileza nisso tudo. talvez uma certa preocupacao. a verdade eh que ninguem entende nada. nada.
e nada eh o que tambem posso fazer a respeito.

por muitas vezes, a vontade eh de nada dizer. de parecer idiota. nao ter qualquer opiniao. todo domingo eh ruim, todo domingo eh ruim em qualquer canto do mundo. pensamentos praticos. procurar emprego. comprar papel higienico. pagar o proximo aluguel. comprar moveis. os pratos, bem, ha dois pratos. so dois pratos, e por caridade.

talvez haja nada demais em se ter dois pratos, so dois pratos, e por caridade. mas eh que eh engracado: talvez poucas pessoas passem por isso, talvez muitas, mas eh que eu nunca cri que fosse ter uma situacao assim. e mais: nunca imaginei que um domingo e ter dois pratos por caridade fossem me deixar com esse gosto esquisito na boca. com essa vontade de escrever qualquer coisa, sem saber bem o que. nunca achei que, num domingo, os beatles fossem simplesmente me irritar.

e as pessoas continuam com as mesmas perguntas. e eu me pergunto se um dia serei desassociada da minha nacionalidade.




procurar emprego. comprar papel higienico. nao pode ser tao doloroso assim. ouvir astor piazzolla. nada melhora. a casa continua escura. e a noite avanca, sem que eu possa entender muita coisa.
eh um desespero. mesmo que eu estivesse la... todo domingo eh ruim.

Sexta-feira, 10 de Outubro de 2008

pra que título?

dizem que é partida.
reúno livros, 17,8kg de livros.
penso em partida.

é sexta-feira e eu gostaria de ver meus amigos.
dizer-lhes o quanto tudo é estranho,
o quanto a vida ainda pode ser bonita
e que gostaria de saber o que está passando
no cinema.

é sexta-feira e eu realmente não sei
o que isso quer dizer.
talvez seja mais sexta-feira
se eu olhar pelas janelas:
icaraí, a moreira césar,
o túnel de árvores da moreira césar
em niterói, rio de janeiro, brasil.

(até quando?)

tenho vontade senão de escrever
alguma coisa boba,
alguma coisa que marque
essa iminente partida,
essa ida em vias de acontecer.
não vivo senão cá e lá.
penso e não-raro penso noutro lugar.

(é sempre assim.)

(eu seria poeta,
não fossem os barulhos dos ônibus,
os livros que deixarei aqui,
o despimento da comunicação
e a estranha sensação de partida.)

(mas é sempre assim.)

Quinta-feira, 11 de Setembro de 2008

setembro.

eu falo e penso
e somos um.
não podemos ser senão
um.
e que assim fique.
tantos setembros, tantos
meses suspensos -
o que fazemos
pelo porvir?
se eu fosse ainda menina,
se eu duvidasse da existência,
se deus existisse
ou se eu fosse deus,
estipularia:
que não haja mais tempo.
que setembro seja qualquer
mês - outubro, sim,
outubro -
mas nunca setembro.